segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Cegos dos Olhos

“Eu nunca havia visto uma câmera em toda a minha infância, minha irmã me emprestou a dela e me mostrou como funcionava. Depois fui à escola e fotografei uma menina pela qual eu era apaixonado. E assim começou uma relação muito interessante com a fotografia...” O depoimento é do esloveno radicado na França Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta. Aos 12 anos, após dois acidentes consecutivos perdeu a visão completamente. Pelo inusitado que há em ser fotógrafo cego somado à qualidade estética e ao apelo emocional de suas fotos, ficou famoso e percorre o mundo com exposições. Segundo ele, “o mundo não é separado entre os cegos e os não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós também construímos imagens interiores.”

Marcos Silva também é fotógrafo e também é cego. Guardadas as devidas proporções, é o Evgen Bavcar natalense. Não tão famoso, nem tão apurado em seu senso estético, ele desenvolveu de forma eficaz a capacidade de produzir fotografias a partir da sua imagem do mundo. E o mais curioso é que suas incursões iniciais por esse universo também tiveram motivações passionais. Foi apontando a câmera para sua esposa, na intimidade do lar, que ele se descobriu fotógrafo. Marcos é estudante de Direito em uma faculdade particular e diretor do IERC - Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do RN.

Exemplos de fotógrafos cegos existem ao redor do mundo. No México, Gerardo Nigenda, Carme Ollé na Espanha e Eladio Reyes em Cuba. Imaginem vocês a quantidade de desconhecidos... São histórias por vezes tristes, mas repletas de desafios e de superação. Afrontam o senso comum de que pra fotografar é preciso ver. Na verdade, é preciso olhar para as coisas.

É fundamental portanto separar o Olhar do ato isolado de ver. A simples apreensão visual de uma cena à beira-mar por exemplo, não surtiria o mesmo efeito se não pudéssemos ouvir o barulho das ondas, nem sentir a brisa ou a agradável claridade de um fim de tarde (que se sente principalmente com a pele). Ao longo da vida, pelo acúmulo das experiências sintetizamos culturalmente nossas imagens interiores. Quando necessário, as acionamos para diversas funções: a comida feita pela avó pode trazer flashbacks da infância, uma simples melodia é capaz de nos fazer embarcar de novo naquela viagem que fizemos no tempo da escola. Olfato e audição auxiliando a estabelecer nosso olhar sobre as coisas.

O documentário Janela da Alma, dos diretores João Jardim e Walter Carvalho (2002), fala justamente disso, da importância do olhar em seu mais amplo aspecto. O filme nos mostra, sobretudo, que ver não é privilégio dos olhos. Nas palavras do neurologista Oliver Sacks, “se os olhos são a janela da alma, estas se abrem para fora de nós e não pra dentro, como muitos supõem. Quando olhamos, é nossa alma que se projeta nas coisas”.

Todos os sentidos são importantes, ensinam Marcos e Bavcares. Interpretar os sentidos é o mais importante, na verdade. A mesma brisa que bate em sua pele, também atinge as árvores, os bancos de praça e os muros... O que a faz tão especial então? Se você não é capaz de responder, talvez seja cego. E não é cego dos olhos...