quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Censura

Referindo-se à mídia brasileira, o jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski, afirmou: “temos menos pluralismo na democracia do que na ditadura”. A frase causa polêmica, tanto que um dia, perguntei a Eugênio Pereira, na época professor de Comunicação Política, como ele compararia a censura existente no período militar com a exercida nos dias de hoje pelos veículos de comunicação sobre os profissionais, seja pelo fantasma da demissão ou pelo simples receio de um fim precoce da possível carreira em jornalismo. O professor defendeu a idéia de que durante a ditadura, de longe, a censura se fazia mais presente, relatando inclusive casos de torturas e desaparecimentos. Não houve contestação. Apesar disso, concordo com Kucinski em seu texto “Do discurso da ditadura à ditadura do discurso – Dez paradoxos do jornalismo neoliberal”.

A defesa do modelo neoliberal por parte da grande mídia hegemônica brasileira se mostra dogmática. É como se falar em alternativas ao neoliberalismo seja o mesmo que falar em bruxas ou dragões medievais. Essa mesmice jornalística contradiz até o princípio da livre circulação de idéias e propostas controversas como a melhor forma de resolver os problemas da sociedade, tão importantes àquele modelo. Como num movimento ordenado, o enfoque dado às notícias por parte de meia dúzia de veículos do eixo Rio-São Paulo é repetido pelo país, em capitais ou no interior, na internet, nos impressos, no rádio ou na TV. E essa ancoragem se dá não apenas por esses veículos serem parte de uma mesma empresa, como acontece em alguns casos, senão por uma questão mercadológica, embalada pela ausência de visão crítica.

A doutrina do discurso único entra em conflito também com a distribuição da população brasileira em classes sociais. Em uma sociedade cada vez mais polarizada entre pobres e ricos, seria natural encontrarem-se contemplados pela mídia discursos antagônicos, representantes de lados opostos na divisão da riqueza do país. Isso só viria a confirmar a vertente jornalística da defesa de interesses, em oposição à pseudo-imparcialidade espertamente pregada pelos veículos. Entretanto, enquanto 21% dos congressistas (todos eles de partidos conservadores) são donos de rádio ou TV, nunca uma associação popular ou sindicato recebeu sequer uma concessão. Fica claro, portanto, o porquê da defesa de apenas um dos lados da moeda.

À esse jornalismo mercadológico, que se diz defensor do interesse público, saio em defesa de um jornalismo engajado politicamente, que defenda pontos de vista e mostre a cara. Nada do que se diz em um telejornal, por exemplo, é por acaso, e não tem sempre o puro (e ingênuo) objetivo de nos informar. Toda enunciação possui um sujeito e precisamos saber de onde ele vem, para quem trabalha e quais são suas crenças. A atividade jornalística, por mais que se tente objetiva, nunca será imparcial. É pois sob a falsa égide da imparcialidade que por um lado se censuram pontos positivos de determinados fatos e ainda se cometem abusos como o denuncismo, recebendo crédito por grande parte da população.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

de carona no sonho alheio...

Sabe aquele dormida de alguns minutos que a gente dá, pela manhã, depois de já ter acordado oficialmente? Curioso foi o sonho que tive outro dia, num desses cochilos matinais. Eu estava no centro antigo de alguma cidade que parecia familiar, nada muito exótico, porém irreconhecível para mim. Entrava num táxi e o motorista me perguntava:

- Pra onde?

Nesse momento, eu abria o jogo:

- Amigo, eu realmente não sei onde estou... na verdade, acabei de fechar os olhos. Você pode seguir seu caminho e aí eu vejo onde vou ficar.

Ele concordou e acelerou o carro. No caminho, de vez em quando, virava pra trás e meio que ria de mim, como se dissesse " não sabe onde está...tsc tsc". Apesar disso, em algumas esquinas, me perguntava se deveria dobrar a esquerda ou direita. Respondendo aleatoriamente, eu tava mesmo era tentando descobrir pistas para acabar com aquela amnésia onírica. Minhas tentativas de dialogar foram em vão. Tudo o que ele se resumia a dizer era: "não sabe onde está... tsc tsc"

O taxista me levou a um outro senhor, mais velho, da cabeça branca. Ele parecia saber de muitas coisas... eu tava apenas querendo saber sobre mim. Qual a minha função naquele sonho. Repeti a mesma história que tinha contado no início. Fazia poucos minutos que tinha pregado os olhos. Na verdade, num momento eu estava estudando no meu colchão e pá! já estava ali, vagando por ruas por onde nunca havia passado, apesar de parecer saber pra onde estava indo, tanto que entrei num táxi...

O velhote ouviu tudo atentamente, com uma mão no cajado e outra na barba (exatamente como nos filmes). Pro meu quase desespero, tudo o que ele falou baixinho foi:

- Então ele não sabe onde está... tsc tsc

As batidas secas na porta oca me acordaram TOC TOC TOC. Era Rafa, amigo meu me chamando pra terminar um serviço que tinhamos deixado por fazer. Olhei no relógio e não havia passado nem meia hora desde que estava estudando...